sexta-feira, 7 de março de 2014

Por que devemos cantar hinos inspirados nas Escrituras?

A música sempre esteve presente nos momentos de adoração do povo de Deus. Desde o velho testamento, observamos servos fiéis de Yahweh louvando-O através de canções, elogiando os Seus poderosos feitos, Sua gloriosa criação e Seu maravilhoso plano de redenção. Já no livro do Êxodo, encontramos o registro de Moisés, logo após a travessia do Mar Vermelho, cantando ao Senhor, sendo em ato contínuo seguido por Miriã e outras mulheres que, com danças, repetiam: “Cantai a Yahweh, porque sumamente Se exaltou e lançou no mar o cavalo com seu cavaleiro” (Êx 15:21). Outrossim, o livro dos Juízes retrata a juíza Débora entoando seu cântico ao Deus de Israel, dizendo: “Ouvi, reis; dai ouvidos, príncipes; eu, eu cantarei a Yahweh; salmodiarei a Yahweh , Deus de Israel” (Jz 5:3ss). Já Ana, mãe do profeta Samuel, por ser agraciada pelo Senhor com um filho e após consagrá-lo a Ele, entoou um cântico: “O meu coração exulta em Yahweh, o meu poder está exaltado em Yahweh; a minha boca se dilatou sobre os meus inimigos, porquanto me alegro na sua salvação” (I Sm 2:1ss). E assim prossegue toda a narrativa do AT, com o registro de muitos cânticos do povo de Deus em situações especiais, sendo que inclusive o maior livro que o compõe nada mais é do que um saltério, isto é, uma coletânea de hinos de louvores a Deus.

Semelhantemente a Ana, Maria também se alegrou com a promessa de que seria mãe, e como ela, também entoou um belíssimo cântico ao Senhor, que ficou conhecido na história da Igreja como o Magnificat: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1:46ss). As Escrituras também registram um momento ímpar na vida e no ministério do Senhor Jesus. Em Seus últimos momentos antes de Sua crucificação, logo após a instituição da Santa Ceia como memorial da Aliança que Deus firmaria com Seu povo através do Sangue que Ele derramaria na cruz do Calvário, Marcos diz que: “tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras” (Mc 14:26), onde Pedro seria avisado que negaria o Senhor e de onde partiriam para o Getsêmani. Embora não saibamos qual hino teria sido entoado na ocasião, vemos nesta passagem que Cristo fez uso deste expediente, e certamente o fez com um propósito, o qual não sabemos, mas podemos especular que fosse para ajudar os discípulos a lembrar das promessas feitas por Deus ao Seu povo, do Seu cuidado e providência, e até mesmo para encorajá-lo na missão que Ele teria que cumprir nas próximas horas, a saber, todo o suplício de sua prisão, julgamento, flagelamento e crucificação, visando a nossa redenção.

É certo que o louvor a Deus pode dar-se de inúmeras formas, e não se resume aos atos que são praticados em nossas atividades litúrgicas. No nosso viver diário, devemos louvar a Deus e agradecê-lo por Seus atos de bondade para conosco, reconhecendo que é por Ele, dEle e para Ele que são todas as coisas (Rm 11:36). Porém, é no culto público que este louvor pode e deve evidenciar-se de forma abundante e plena, visando à glorificação do Senhor e a edificação dos congregados naquele local. O Apóstolo Paulo nos exorta em Colossenses 3:16:

Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.

Vemos nesse pequeno texto a importância de a Palavra de Deus habitar em nossos corações, de tal maneira que Ela produza em nós instrução, conselho, sabedoria, louvor, uma hinódia cristã verdadeiramente espiritual e gratidão, e que haja mutualidade neste processo, ou seja, tudo sirva para edificação uns dos outros no culto: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação; faça-se tudo para edificação” (1 Co 14:26). E, ainda, “faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Co 14:40).

Podemos enumerar pelo menos três razões pelas quais devemos cantar em nossos cultos apenas canções cujas letras sejam de fato compatíveis com a Palavra de Deus: (1) Porque estes cânticos glorificam a Deus na forma como Ele mesmo Se revelou; (2) Edificam os crentes na Bíblia; e (3) Transmitem ensinos aos não-crentes que visitam o culto solene.

Em relação à primeira razão enumerada, entendemos ser de fundamental importância a exaltação dos atributos de Deus tais quais a Bíblia nos indica: Ele é o Senhor Soberano, o Criador de todas as coisas, o Onipotente, o Onisciente e o Onipresente, Aquele que é, que era e que há de vir (Ap 1:4). Nossos cânticos devem refletir a grandeza e a majestade do nosso Deus, a exemplo dos Salmos 48 e 145.

Sobre o segundo ponto, podemos inferir que crentes que conhecem bem as Escrituras e seus ensinamentos são cristãos mais autênticos e menos suscetíveis a erros doutrinários e de caráter (Sl 119:105); assim sendo, é de fundamental importância que nossos cânticos não contenham heresias ou pensamentos de origem religiosa duvidosa, como podemos perceber em alguns hits gospel do momento, que trazem em seu bojo alguns ensinamentos da nova era e da doutrina da confissão positiva e da teologia da prosperidade, tão nocivas em sua essência.

E, finalmente, sobre o terceiro ponto podemos comentar que os não-cristãos devem recebem desde o seu primeiro contato com a fé evangélica um ensinamento corretamente embasado nas Escrituras (Mt 28:19-20), não apenas no sermão que será proferido mas também pelas mensagens recebidas através da adoração musical, tendo em vista ser a música um instrumento de melhor captação e memorização de informações nelas contidas. Quando aplicarmos estes princípios em nossas reuniões de adoração, creio que será possível vivenciarmos o que o Apóstolo Paulo nos narra em I Coríntios 14:25, em que ele diz que o não-crente presente, “lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre nós”. Aleluia!

Sola Scriptura!


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 22ª Edição (página 13), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Preletores da Consciência Cristã lançam “Carta de Campina Grande”

Na noite de encerramento do 16º Encontro para a Consciência Cristã, nesta terça-feira (04), todos os 32 preletores do evento lançaram um documento, a “Carta de Campina Grande”. Nele, os palestrantes reafirmam e reasseguram o seu compromisso com o genuíno Evangelho de Cristo, sua defesa e sua pregação por todo o Brasil e todo o mundo.

Confira a carta, na íntegra:

CARTA DE CAMPINA GRANDE

Nós, membros da igreja de Jesus Cristo, participantes do 16º Encontro para a Consciência Cristã, celebramos a comunhão que desfrutamos como povo de Deus, unidos ao redor do evangelho de Cristo.

No início deste século e milênio a igreja evangélica brasileira tem enfrentado imensos desafios e inesperadas oportunidades. O crescimento numérico das denominações evangélicas tem sido notório, levando-nos à plena convicção de que o Deus Todo-Poderoso tem salvado um número incontável de pessoas para a glória do seu Nome. Entretanto, é possível constatar que uma parcela significativa do evangelicalismo brasileiro tem abandonado o compromisso com o evangelho ensinado por Cristo.

Lamentavelmente, um tipo crasso de religiosidade popular tem prevalecido na mídia e na proliferação de templos e denominações, causando escândalo para a fé cristã e distanciando as pessoas que mais necessitam do poder transformador do evangelho. Ao mesmo tempo, muitas igrejas têm se omitido no cumprimento da Grande Comissão, deixando-se influenciar por um avançado processo de secularização. Crescem por oferecer entretenimento e não por fazer discípulos radicalmente comprometidos com Cristo. Pensadores evangélicos antes consagrados à proclamação do evangelho da Salvação Eterna hoje pronunciam-se publicamente rompendo com as convicções que um dia defenderam. Os líderes já não são mais vistos como referências de espiritualidade e integridade, mas como embusteiros, que exploram a credulidade do povo, enriquecendo ilicitamente. Nesse cenário, muitas igrejas conservadoras, ainda que mantendo fidelidade às doutrinas evangélicas fundamentais, mantêm-se apáticas em relação ao desafio missionário e à tarefa de influenciar a sociedade como sal da terra e luz do mundo.

Por outro lado, vemos um país sucumbindo diante da corrupção sistêmica, da violência generalizada, da desagregação familiar, do abandono dos valores cristãos, da desigualdade social e de práticas ocultistas.

Diante dessa realidade, oramos por um avivamento espiritual em terras brasileiras. Não um avivamento de emocionalismo e misticismo, que não produz transformações duradouras, mas um que, como ocorreu em outros lugares e outros tempos, proporcionou a conversão verdadeira de milhares e até milhões de pessoas, chegando a mudar o rumo de nações. Para demonstrar nosso compromisso com o avivamento da igreja brasileira, nós declaramos juntos:

NÓS CREMOS NO EVANGELHO

O evangelho de Jesus Cristo é a boa notícia da salvação graciosa de Deus somente pela fé em Jesus Cristo. Nós não compactuamos com as grandes distorções da mensagem cristã, ensinadas por grupos que, em sua essência, exploram a credulidade do povo e buscam o enriquecimento ilícito em nome do evangelho. De acordo com as Escrituras, esses são lobos vorazes, mercadores da fé, charlatães. Sua existência não nos surpreende, pois, desde o início, Jesus e os apóstolos nos alertaram contra suas práticas.

O evangelho de Cristo exalta Deus que, em sua santidade, justiça e amor, oferece ao ser humano caído salvação através do sacrifício redentor de Cristo, o Messias prometido, o Filho de Deus. Afirmamos que ninguém pode ser justificado por suas obras, pois todos pecaram e distanciaram-se da glória de Deus. Somente pela fé em Cristo como Senhor e Salvador, o ser humano é salvo dos seus pecados e transformado em nova criatura.

NÓS PROCLAMAMOS O EVANGELHO

A missão principal da igreja é glorificar a Deus, proclamando o evangelho e fazendo discípulos de todas as nações.

Reconhecemos que a igreja foi chamada para proclamar o evangelho em sua inteireza, mas nos recusamos a vinculá-lo a ideologias políticas ou agendas de ambições pessoais. Cremos que o evangelho deve ser proclamado nos termos e ênfases do evangelho, não nas circunstâncias mutáveis da sociedade. Nós proclamamos o evangelho em sua totalidade, sem omitir seus aspectos essenciais como a justiça e a santidade de Deus, a culpa do ser humano, a salvação somente pela fé, a ressurreição dos mortos, o julgamento final, o céu e o inferno. Nós proclamamos o evangelho a todas as pessoas, independentemente de raça, nacionalidade, sexo, religião ou condição social. Cremos que todas as pessoas precisam ouvir o evangelho em sua própria língua e cultura, de forma contextualizada, que tenham a oportunidade de ser discipuladas e fazer discípulos, formando igrejas locais autóctones comprometidas com o pleno ensino do Reino de Deus, fazendo da proclamação do evangelho um estilo de vida.

Nós repudiamos mensagens que substituam o evangelho de Cristo por conteúdos humanistas de autoajuda, que promovam um misticismo desvinculado das Escrituras e transformem Deus em um negociador de bênçãos.

NÓS DEFENDEMOS O EVANGELHO

Desde os seus primórdios, o ensino de Cristo esteve sob o ataque de crenças e filosofias hostis à mensagem da salvação pela graça mediante a fé. Somos chamados a lutar diligentemente por essa fé que nos foi entregue de uma vez por todas, estando preparados para dar razão da esperança que existe em nós e vigiando contra lobos vorazes que não poupam o rebanho. A defesa da fé faz parte essencial da missão da igreja enquanto ela proclama o evangelho de Cristo. Nós rejeitamos o evangelho do relativismo pós-moderno, do ateísmo militante, do secularismo pragmático, do liberalismo teológico, das seitas e cultos, do nominalismo religioso, de todas as ideias e ideologias que se levantam contra ou pretendem substituir o evangelho de Cristo. Nós afirmamos nossa plena convicção na existência de Deus, em sua revelação objetiva e inerrante através das Escrituras, na singularidade de Cristo e na realidade da eternidade. Nós defendemos o evangelho com amor, sabedoria, compaixão e firmeza, sem qualquer contemporização, visando a conversão dos perdidos e a proteção daqueles que crêem, na firme convicção de que o próprio Jesus edificará sua igreja e a portas do inferno não prevalecerão contra ela.

NÓS NOS COMPROMETEMOS A VIVER À LUZ DO EVANGELHO

Mártires, reformadores, avivalistas através da história têm assumido o absoluto compromisso com o evangelho. O maior apelo para a veracidade do evangelho é o testemunho de vidas radicalmente comprometidas com ele. Nós nos comprometemos a viver de forma digna do evangelho de Cristo como indivíduos, discípulos, profissionais e cidadãos, recusando-nos a ceder ao materialismo, ao relativismo e à corrupção, aceitando carregar a cruz de Cristo como prioridade absoluta do testemunho do evangelho de Cristo. Como cidadãos do reino de Deus, assumimos o compromisso de, na dependência da graça de Cristo, viver o poder transformador do evangelho em todas as suas dimensões. Diante da corrupção generalizada e do relativismo moral na sociedade brasileira, nós estamos prontos para assumir as plenas implicações éticas e morais do evangelho, não somente na esfera da igreja, mas também da sociedade: educação, trabalho, política, economia, cultura.

NÓS ORAMOS PELO PROGRESSO DO EVANGELHO

Reconhecemos que, sem a intervenção soberana e sobrenatural de Deus, não veremos o verdadeiro progresso do evangelho. Esforços humanos produzem resultados humanos. Através da história, o evangelho tem impactado nações pelo poder do Espírito Santo. Embora o Brasil nunca tenha experimentado um avivamento espiritual de grandes proporções, nós nos comprometemos diante de Deus a orar por esse avivamento, na expectativa de uma transformação radical no curso de nossa nação através da igreja do Senhor, cheia do Espírito Santo, vivendo a plenitude do evangelho.

NÓS NOS UNIMOS PELO EVANGELHO

Dizemos não a uma união que compromete a essência do evangelho de Cristo. Não cremos que todos os caminhos levam a Deus, pois Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Não cremos que todas as instituições ditas cristãs de fato seguem a Cristo, pois muitas afirmam o nome de Cristo sem conhecê-lo. Mas afirmamos sim nosso compromisso de unidade com todos aqueles que abraçam o evangelho de Cristo, como nos foi transmitido por Jesus e seus apóstolos. Ao mesmo tempo, reconhecemos que as verdades essenciais, comuns a todos os evangélicos herdeiros da Reforma, podem nos unir não institucionalmente, mas como corpo vivo de Cristo, que, na sua diversidade, cumpre a sua missão. Desejamos ser a resposta a oração de Cristo quando ele orou para que fôssemos um. Nós nos unimos pela proclamação do evangelho a todas as nações.

Assim, confiantes na graça de Deus, assumimos este compromisso diante de Deus e de seu povo para vermos em nossa nação brasileira um poderoso progresso do evangelho de Cristo.

Subscrevemos,

Pr. Euder Faber Guedes Ferreira (Coordenador do 16º Encontro para a Consciência Cristã)

Pr. Jorge Noda (ILEST/PB)

Pr. Renato Vargens (ICA/RJ)

Dra. Norma Braga (IPB/RN)

Pr. Paul Washer (Heart Cry/EUA)

Pr. Hernandes Dias Lopes (IPB/ES)

Dr. Russell Shedd (IB/SP)

Pr. Augustus Nicodemus (IPB/SP)

Pr. Ronaldo Lidório (IPB/AM)

Dr. Heber Campos Jr. (IPB/SP)

Pr. Jonas Madureira (IB/SP)

Pb. Solano Portela Neto (IPB/SP)

Prof. Adauto Lourenço (IPB/SP)

Pr. Joide Miranda (MEI/MT)

Pr. José Bernardo (AMME/SP)

Pr. Geremias Couto (AD/RJ)

Prof. Ricardo Marques (IBC/CE)

Pr. Joaquim de Andrade (CREIA/SP)

Miss. Gleydice Bernardes (ACEV/PB)

Miss. Socorro Teles (IPB/PB)

Pr. Robson Tavares (ICNV/PB)

Pb. José Mário (IPB/PB)

Pr. Luiz Vieira (ICNV/PB)

Pr. Valter Vandilson (ICD/PB)

Pr. José Américo (IB/PB)

Pr. José Pontes (IN/PB)

Miss. Joyce Clayton (Inglaterra)

Profª. Janeide Andrade (OBPC/PB)

Miss. Edna Miranda (MEI/MT)

Miss. Rosali Melo (IC/PB)

Dra. Paumarisa Vieira (IPB/PB)

Pr. Weber Alves (ICES/PB)

Jorn. Josué Sylvestre (AD/PR)

Fonte: Consciência Cristã.

O mito do cristão não-ungido

André Neves

No meio cristão moderno é possível encontrar crentes que acreditam piamente que Deus selecionou algumas pessoas dentro da Igreja para exercerem um papel tão proeminente sobre os seus demais membros, que são por este motivo denominados “ungidos do Senhor”.

Valendo-se de uma expressão bíblica veterotestamentária, que possuía a conotação de uma pessoa escolhida por Deus para exercer uma função pública, civil ou religiosa, de autoridade – rei, sacerdote ou profeta –, estes modernos cristãos acreditam que é plausível que, assim como no Antigo Testamento, apenas algumas pessoas hoje possuam de fato a Unção divina. Estas pessoas podem ser pastores, profetas, cantores ou neoapóstolos. Não importa. Na opinião destes crentes, estas pessoas são ungidas num grau único, ou, na melhor das hipóteses, infinitamente superior aos demais membros do Corpo de Cristo. São, verdadeiramente, “cabeças”, e os demais fiéis, a “cauda”.

O primeiro problema deste pensamento é o da má compreensão da verdade bíblica das principais distinções entre a Antiga e a Nova Aliança. Recomenda-se a leitura e estudo aprofundados das Epístolas Paulinas aos Romanos, aos Gálatas e, especialmente, a Carta aos Hebreus. Notoriamente, é preciso destacar a doutrina bíblica do “sacerdócio universal dos crentes”, redescoberta por Martinho Lutero na Reforma Protestante. Esta doutrina ensina que todo cristão é um sacerdote diante do Altíssimo, tendo Cristo como o sumo Sacerdote (1 Pedro 2:9,10). São, portanto, todos os cristãos, ungidos para exercer este glorioso ministério, o ministério da reconciliação (2 Coríntios 5:18)!

ichthysNão existe cristão não-ungido! Todos os filhos de Deus possuem a unção do Santo (1 João 2:20), isto é, todos quantos creram e receberam a Jesus como Salvador, e em decorrência disto são cristãos nascidos de novo (João 3:6,7). Afirmar que um crente não possui a Unção é afirmar que este crente não é verdadeiramente um cristão renascido, e, portanto, salvo. Pense duas vezes antes de acusar alguém de não ter a Unção, pois é O SENHOR quem conhece os que são Seus (2 Timóteo 2:19).

“(…) Em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.” (Atos 11:26)

A palavra “cristão”, etimologicamente, significa ungido! Da mesma forma que “Cristo” é a forma grega da palavra hebraica “Maschiach” (Messias), que quer dizer “o Ungido”, aquele a quem as profecias veterotestamentárias se referem e apontam como o escolhido de Javé para tornar possível a redenção da humanidade.

Mas, antes que você pense que, como você pode se considerar no mesmo nível de Unção que seu super-crente favorito, e que, por esta razão, “ninguém pode tocá-lo”, deixe-me dizer algo; ser cristão, isto é, ser ungido de Deus no contexto neotestamentário tem muito mais a ver com padecer sofrimentos por amor do Evangelho, à semelhança do que Cristo vivenciou em nosso favor:

Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte.” (1 Pedro 4:16)

Outrossim, outra expressão que é extremamente mal compreendida nos nossos dias é a de Salmo 105:15, que diz: “Não toqueis nos Meus ungidos…”. Davi quando teve a vida de Saul em suas mãos, declara que tomou a decisão de poupar-lhe a vida exatamente por este motivo, porque não ousaria tocar no ungido do Senhor (isto é, em um rei em Israel). Oras, está bem claro que o “tocar no ungido” no sentido preconizado no Antigo Testamento tem a ver com assassinato, ou, na melhor das hipóteses, com infligir dor física grave naquele que Deus elegeu para um propósito naquela época, nada tendo a ver com emitir uma opinião ou expor um erro doutrinário de um líder cristão, em nossos dias, à luz da razão e da Palavra de Deus, o que é aliás, um dever do crente (João 7:24).

Os sentimentos humanos (emoções) não são o parâmetro adequado para medir ou verificar quem é ungido ou não, e muito menos aferir a qualidade da vida espiritual e devocional alheia, classificando dessa forma crentes "mais ungidos" que outros. Isto não é bíblico, e provém certamente do coração humano que é enganoso por natureza (Jeremias 17:9-10). As Escrituras afirmam que o Senhor conhece muito além das aparências, pois Ele olha diretamente para o coração (1 Samuel 16:7).

Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.” (1 Pedro 4:10)

A medida da Unção de Deus para cada crente já foi derramada sobre ele no momento em que o Seu Espírito Santo passou a habitar nele (ou seja, no momento da conversão), e o que acontece depois disto é, no máximo, um renovo ou confirmação desta Unção já provida. Ah, só mais uma coisa: não existe a menor possibilidade de a Unção de uma pessoa ser transferida a outra! Isso é uma esquizitice sem tamanho! A Unção que Deus quer que você tenha Ele já te deu, e a Unção que a outra pessoa tem é porque Deus a deu! Não a cobice! Seja plenamente satisfeito com o que o Senhor já te presenteou! Amém?

(Originalmente publicado no Facebook, e adptado.)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A preparação do ministro de louvor

A preparação do músico cristão que labora na área do louvor congregacional na igreja local nos dias de hoje é de fundamental importância. Temos percebido que o meio musical nas igrejas tem sido saturadas por músicos e cantores em geral descomprometidos com a ética cristã, com os valores do Reino de Deus e com a sã doutrina. É por esta razão que temos amargado o surgimento de uma nova classe de cristãos, que são verdadeiros artistas, inclusive cobrando valores exorbitantes por suas apresentações em eventos gospel. Eles não se apresentam em determinadas localidades e/ou para um pequeno público, cobram altíssimos cachês, não se envergonham de participar de novelas globais e, infelizmente, chegam ao ponto de, “tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder” (II Timóteo 3:5), escarnecerem publicamente dos ensinamentos de Cristo.

A situação de hoje é crítica, pois como sabemos, há uma cultura no meio evangélico de que não podemos julgar posturas ou ensinamentos, com discernimento bíblico, que muitos já confundem com o juízo temerário (pela aparência). Isso faz com que muitos destes artistas acabem disseminando heresias no meio da igreja, através de suas “pregações” e canções, e de igual forma sendo imitados por alguns ministros de louvor em suas congregações locais. Ao focar no ministério de alguma celebridade gospel, muitos músicos ou cantores cristãos esquecem de focar seu olhar em Cristo, aquele que é o Autor e Consumador de nossa fé (Hebreus 12:2).

Nestas breves palavras, queremos enfatizar que o ministério cristão é, antes de tudo, serviço, e não uma busca pessoal por fama ou sucesso. Na verdade, a vida cristã é o oposto disto, pois envolve renúncia ao “eu” e total submissão aos desígnios de Deus. Não devemos confundir êxito ou reconhecimento humanos como sinais de aprovação divina, antes precisamos examinar se o nosso labor ministerial exalta a Cristo e está, de fato, “anunciando as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

Para que este serviço seja realizado para a glória de Deus, é necessário que o ministro de louvor se prepare diariamente, seja tecnicamente, estudando seu instrumento (através de exercícios), seja espiritualmente, se alimentando da Palavra do Senhor. O salmista diz no Salmo 119:54: “Os Teus decretos são o tema de minha canção”. Oras, como é possível cantar ao Senhor este tipo de canção, sem conhecer profundamente as Escrituras?

Neste sentido, faz-se necessário que os que ministram louvor em suas congregações locais procurem passar um tempo de leitura diária da Palavra de Deus, pois o conhecimento da Palavra de Deus gerará uma adoração mais genuína e profunda. E o Senhor procura por verdadeiros adoradores, como nos lembram os autores do livro “Como melhorar o louvor de sua igreja”, Carlos Savedra e Moisés Santos:

Louvar a Deus é a mais absoluta expressão de amor a Ele, adorá-lo com profundidade e de todo o coração é a extrema consagração da nossa alma ante sua grandeza e soberania. Isto é adorá-lO em espírito e em verdade”.

Em consequência disto, creio que teremos músicos transformados pelo poder de Jesus Cristo e refletindo o caráter dele no meio desta geração perversa. A vida pessoal, profissional, familiar e ministerial do músico cristão precisam enfatizar os valores de Cristo e as atitudes que Ele espera dos Seus servos, independentemente de quanto tempo de conversão tem o indivíduo, qual o instrumento que ele toca, ou se ele canta apenas no backing vocal ou se dirige a congregação nos louvores a Deus. Toda a equipe de louvor precisa estar devidamente preparada e consagrada ao Senhor, e com este espírito de servos. Em seu livro “O que fazemos com estes músicos?”, o cantor e pastor mexicano Marcos Witt preleciona:

Deveríamos reconhecer, naqueles que se dedicam ao ministério da música e louvor, uma grande responsabilidade por suas atitudes, dentre as quais a compaixão ou misericórdia pelo povo. Por infelicidade, muitos músicos não são reconhecidos como homens e mulheres que se importam com os outros; ao contrário, são vistos como pessoas que pensam mais em si mesmos. É urgente que cada um de nós comece a ver nosso nível de entrega aos demais, e se descobrirmos que não temos o mesmo nível que teve Jesus, devemos pedir ao Senhor que nos encha com seu caráter misericordioso, compassivo e de entrega ao povo. Cada vez que tivermos um ‘ataque’ de egocentrismo deveria recordar que Jesus viveu para servir aos demais, e para dar sua vida em resgate de muitos”.

Portanto, que possamos a cada dia mais buscar a excelência no serviço que prestamos ao Senhor e à comunidade de fiéis na qual comungamos, cantando e salmodiando ao Senhor até que Ele venha! “Louvai ao SENHOR, porque é bom cantar louvores ao nosso Deus, porque é agradável; decoroso é o louvor.” (Salmo 147:1)

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 21ª Edição (página 13), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Nota rápida sobre o que eu já aprendi sobre “soberania divina” e a “liberdade humana”.

Lucas Martins¹

bem_malConciliar a soberania divina e a liberdade humana ainda tem sido motivo de muita controvérsia em corredores de seminários, igrejas e outros grupos variados. Nesses círculos, surge a seguinte pergunta: se Deus é soberano sobre todas as coisas, isso significa que somos meras marionetes? Ou, se o homem é livre, capaz de tomar decisões livres, implica dizer que Deus não é soberano sobre todas as coisas? Alguns calvinistas que eu conheço alegam que a crença que enfatiza a liberdade humana é errônea, porque “reduz a glória de Deus”, “reduz a soberania de Deus no universo” e “traz uma visão antropocêntrica e não teocêntrica”. Os calvinistas costumam dizer que o calvinismo é a doutrina que “glorifica mais a Deus”, porque afirma a Sua soberania sobre todas as coisas. Por outro lado, outros não calvinistas presumem que essa ênfase na soberania divina (também chamado de “determinismo divino”) pode contrariar o caráter santo e bom de Deus. Ora, se Deus determina infalivelmente tudo o que acontece, será que até os atos e pensamentos malignos dos homens são efetuados pelo santo e bom Deus? Se sim, isso provavelmente compromete o caráter de Deus, “que não pode tentar ninguém e a ninguém tenta”. Se não, então como Ele determina tudo, e não o pecado?

Apesar das discussões calorosas, a intenção por trás de cada grupo é motivada por um forte zelo bíblico-doutrinário e uma vontade de agradar a Deus. Mesmo assim, a discordância prevalece e é necessário saber lidar com aqueles que pensam diferente de nós. Isso não quer dizer que não devemos ter uma opinião própria. Crer é também pensar e sustentar com firmeza aquilo em que se acredita. Todavia, muitos apologistas esquecem a mansidão, a humildade e o domínio próprio na hora de defender a razão da sua fé. De acordo com o Mestre, a melhor apologética – a saber, a melhor maneira de defender a fé e torná-la visível – é o exercício do amor uns pelos outros. Portanto, amemos. Assim, todos saberão que só amamos uns aos outros porque Ele nos amou primeiro.

Precisamos compreender que esse, como alguns outros, é um debate secundário, embora útil, ao exercício da fé cristã. Esta, por sua vez, transcende a imponência dos credos eloquentes e se traduz melhor em ações diárias que demonstrem os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, benignidade, longanimidade, temperança, domínio próprio etc. É secundário porque pode fazer com que os discípulos percam o foco, vindo a pensar que o mero assentimento intelectual de proposições doutrinárias é a vontade de Deus para as suas vidas. A utilidade deste tipo de debate consiste não em fazer especulações sem fim, mas em quando essas especulações viram um guia prático da conduta moral do discípulo, aproximando-o da Palavra Viva.

Depois dessas ponderações, voltamos ao debate original. Como conciliar a soberania divina e a liberdade humana? Eu costumo dizer que essa liberdade é uma dádiva do próprio Deus. Sendo soberano sobre sua própria criação e livre para criar o que bem entendesse, Ele quis que cada ser humano possuísse tal natureza. Ou será que Deus não era livre para criar o que quisesse? A minha definição de livre-arbítrio é “a capacidade de fazer (ou não fazer) o contrário daquilo que estou mais disposto a fazer”. Por exemplo, Deus poderia não ter criado nada. A existência do Universo não é necessária para a existência de Deus. Ele é autossuficiente. A criação foi um ato de graça, para expandir o alcance do amor divino – até então trinitário – à criação. Ele poderia não ter criado, mas o fez. Ou seja, Deus estava predisposto a não criar nada, porque Ele é autossuficiente e o mundo não era necessário para Ele, mas mesmo assim Ele criou. Logo, o Criador de todas as coisas possui livre-arbítrio, isto é, a capacidade de fazer o contrário daquilo a que se está mais disposto a fazer. A. W. Tozer argumenta que, se Deus é livre, e Ele fez o homem à sua imagem e semelhança, segue-se que o homem também é livre. Em outras palavras, em um ato de soberania criativa, Deus dotou o homem de livre-arbítrio, isto é, a capacidade de fazer escolhas contrárias.

Alguns dizem que “a crença na liberdade humana reduz a glória de Deus”. Analisando bem essa frase, vemos que ela é um absurdo contra o próprio caráter de Deus, e compromete sua justiça, santidade, bondade e amor. Se o homem não é livre, implica que ele não pode ser responsável pelo seu próprio pecado. Responsabilidade requer liberdade. Se Deus causou o pecado de Adão, de forma que Adão não poderia ter feito outra coisa, como Ele responsabilizou Adão do pecado que, na verdade, ele não cometeu. Há justiça em atirar em alguém e culpar a bala? Nessa visão, Deus passa a ser o autor do pecado e do mal. E a maioria dos calvinistas não vê problema nenhum nisso. Vicent Cheung escreveu um livro defendendo que Deus é o autor do pecado e não há problema nisso. Outros irmãos dizem que Deus não determina o pecado, mas Ele o “permite”. Em outras palavras, seria possível uma intervenção divina para que o pecado não acontecesse, mas Deus o permitiu porque viu que seria bom que ele acontecesse. Todos os cristãos podem concordar com isso. Mas, quando os calvinistas são questionados quanto a isso, eles dizem que Deus permite o pecado “desejosamente”. O próprio teólogo avivalista Jonathan Edwards sustentava isso. Ou seja, Deus não permite “relutantemente”, mas “desejosamente”. A distinção é sutil, mas incrivelmente relevante ao debate. Se Deus permite desejosamente, significa que o pecado está dentro de sua vontade, tendo Ele mesmo o causado, de forma que o pecador não teve outra coisa a fazer senão pecar. Como dizer que Deus “permite desejosamente” inocenta Deus de ser o autor de mal? De nenhuma forma. São sinônimos. Permitir desejosamente o pecado é só um eufemismo para tentar aliviar a tensão existente. Não resolve o problema. A chance é dizer que Deus permite relutantemente. Se Deus permite relutantemente, implica dizer que o pecado está fora de sua vontade, tendo o homem pecado no exercício de sua liberdade e desobedecido a Deus. Mas dentro de Seu comando, em que Ele providencia perdão, redenção e salvação ao pecador.

O pecado de Adão foi uma transgressão à vontade de Deus, logo, é problemático e contraditório dizer que uma transgressão à vontade de Deus faz parte da vontade de Deus. Veja um exemplo. Um rei, conhecido por sua justiça, proíbe todos os súditos, sem exceção, de tomarem banho no riacho do vilarejo. Em seguida, ele faz com que um de seus súditos tome banho neste riacho, de forma que o súdito não pode fazer outra coisa, senão tomar o banho. Isto é, o rei compeliu o súdito a tomar banho no riacho. Em seguida, o rei pune o súdito, por ter tomado banho no riacho e assim, desobedecido ao seu decreto inicial. Esse seria um rei justo?

Outro problema reside no fato de que se Deus é realmente o autor de todos os pecados e males, de forma a causá-los infalivelmente (ou “permiti-los desejosamente”, que é a mesma coisa), Ele deixa de ser bom, amoroso, misericordioso, santo e puro. O amor não é um atributo divino. O amor é a Sua Essência. “Deus é amor”. “As suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” e “são a causa de nós não sermos consumidos, se renovando toda a manhã”. Com Ele, “o mal não habita”. É exatamente por causa da pureza de Deus que “sem santificação ninguém verá a Deus”, e é exatamente por causa da sua bondade que “Deus não pode tentar a ninguém e a ninguém tenta”. Se Deus é o autor dos nossos pecados, como há justiça na punição dos humanos? A liberdade humana salvaguarda o caráter de Deus e isso, logicamente, resulta em mais glória pra Ele. Logo, concluo que a crença na liberdade humana não diminui a glória de Deus. Antes, ela aumenta o zelo pelo seu caráter santo, justo, bondoso, misericordioso e amoroso, não responsabilizando o Eterno pelos nossos pecados. A propósito, responsabilizar os outros pelos nossos pecados não é surpresa. Isso tem sido feito desde o Jardim do Éden.

L.M.

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¹ Lucas Martins, por Lucas Martins: "Cristão batista, nordestino, escritor e leve ameaça aos mercantes da fé. Porque o que não tem preço não pode ser vendido." Publicou este texto em seu perfil social no Facebook. Publicado com a autorização do autor.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Experimentando o Novo de Deus

A fé cristã é uma crença bem diferente de todas as demais existentes, pois enquanto muitas religiões apregoam a necessidade do ser humano redimir-se a si mesmo mediante grandes esforços pessoais e através de cerimônias e rituais de purificação, o Cristianismo traz uma nova e ousada proposta: você não precisa fazer nada, Cristo já fez tudo por você. Sim, há necessidade de crer, porém essa fé nasce naturalmente quando o homem dá ouvidos à Soberana voz do seu Salvador, que graciosamente bate à sua porta e lhe convida a um maravilhoso banquete. A bem da verdade, o Evangelho é um chamado à abundância de vida e de felicidade. Não qualquer tipo de felicidade, disponível igualmente em riquezas e viagens, mas uma felicidade muito mais profunda, muito mais plena, muito mais abundante e muito mais verdadeira, pois independe de circunstâncias, e subsiste mesmo às maiores adversidades. Ao aceitarmos este chamado, estamos adentrando a uma das maiores aventuras da nossa vida terrena: a nossa nova vida em Cristo.

A respeito dessa nova vida, o apóstolo Paulo declara:

Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (II Coríntios 5:17).

Apenas neste versículo, aprendemos que, para desfrutar desta nova vida, é preciso dar estes quatro passos: (1) Estar em Cristo; (2) Ser uma nova criatura; (3) Deixar as coisas velhas passarem; e, finalmente, (4) Viver o novo de Deus. Todo cristão em sua caminhada aqui nesta Terra, precisa perseverar na fé até o fim, e é através desta fé que ele poderá usufruir da plenitude de sua vida cristã.

Os que são chamados para o Louvor e a Adoração na casa do Senhor precisam atentar para estes requisitos, pois são essenciais para que eles possam, com unção e ousadia, cumprir o ministério para o qual foram vocacionados. A música no culto não pode ser mecânica, protocolar, servindo meramente como entretenimento ou para preencher um tempo na liturgia. Ao contrário, ela precisa ser dinâmica, inspirativa, profundamente bíblica e espiritual, e principalmente, ser executada por pessoas genuinamente nascidas de novo e profundamente comprometidas com o Evangelho de Cristo.

Dessa forma, nós músicos e cantores precisamos refletir a respeito de nossa condição atual, visando um contínuo despertar e aprofundamento na verdade e na santidade bíblica. A primeira pergunta que precisamos fazer é se realmente estamos em Cristo! As Escrituras nos apontam várias exortações neste sentido, tais como nas seguintes passagens: João 15:6; II Coríntios 13:5; Efésios 5:15; I João 4:15, entre outras. De igual forma, precisamos ter em mente que somos novas criaturas em Cristo Jesus, e por este motivo devemos deixar de lado as coisas da velha natureza (Gálatas 5:19-21), que militam contra o nosso espírito e nos atrapalham a comunhão com Deus, e nos aprofundarmos nas virtudes da nova vida em Cristo (Gálatas 5:22).

Outrossim, é preciso deliberadamente deixar as coisas velhas para trás, pela fé e em obediência à palavra de Cristo. Alguns exemplos de “coisas velhas” que muitos músicos cristãos têm dificuldade de deixar para trás são as músicas profanas que costumavam ouvir, posturas de estrelismo musical, vestes que não se coadunam com a simplicidade e o pudor que o culto público impõe, falta de submissão em amor aos líderes, irreverência e imoderação. É preciso uma decisão radical no sentido de romper com tais coisas, visando agradar ao Senhor e obter maior êxito em nossas atividades ministeriais.

Em último lugar, é essencial o viver o novo de Deus. Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, nos admoesta: “(...) assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4). Que esta novidade de vida possa refletir no que cantamos ou tocamos, e principalmente, na forma com que cantamos ou tocamos. Precisamos nos lembrar de que cada culto é um “novo” culto, uma nova oportunidade de ofertar ao Senhor as nossas vidas, os nossos dons e talentos, usando-os para a edificação daquela parte do Corpo de Cristo, reunida em uma determinada hora e no local onde comungamos, com um propósito bem definido que é o de proclamar o Evangelho da Salvação. E que, ao oferecermos a nossa adoração a Deus em forma de cânticos espirituais, preparemos a atmosfera da reunião para receber a exposição da poderosa Palavra de Deus. “Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis?” (Isaías 43:19) A Ele a glória!

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 20ª Edição (página 13), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Verdadeiro Natal

Porque um Menino nos nasceu, e um Filho se nos deu, e o reino está sobre os Seus ombros, e o Seu nome será: ‘Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz’.” (Isaías 9:6)

Ao se aproximar o final do ano, começam os preparativos para a celebração alusiva ao nascimento do Salvador do mundo. A origem dessa festividade é polêmica, e muitos cristãos enxergam nela elementos do paganismo e da cultura romana pré-cristã; alguns vão ainda mais longe e enxergam em alguns de seus símbolos verdadeira transgressão ao segundo Mandamento. Observamos ainda que, para alguns, não se trata de simples ressalva à comemoração natalina, e sim a uma completa rejeição à sua celebração, sob o mais astuto dos argumentos: Cristo não nos teria ordenado comemorar o Seu nascimento, e sim, apenas a Sua morte e ressurreição (através da instituição da Santa Ceia). Tal argumento não merece grande consideração, uma vez que as Escrituras também não prescrevem explicitamente uma série de coisas, e não obstante nós as fazemos e temos como tais coisas boas e agradáveis, e dignas de louvor, sendo portanto lícitas de acordo com os princípios bíblicos (Filipenses 4:8).

Feita essa consideração inicial, entendemos que a celebração do Natal como importante festa no calendário cristão faz parte da vida comunitária na maioria das igrejas cristãs da atualidade. É comum em muitas igrejas a realização de várias programações alusivas a esta data, variando conforme a identidade confessional de cada denominação. De qualquer forma, essa data é marcada anualmente pela alegria e confraternização das famílias e amigos, que geralmente se reúnem na véspera de Natal para um jantar especial seguido de trocas de presentes e de muitos abraços. Esta certamente tem sido uma alegria memorável para muitos seguidores de Jesus de Nazaré em todas as gerações.

Mas temos que nos perguntar qual tem sido o principal motivador para esta festa? É certo que para muitos se trata de mera tradição, e para outros um simples catalisador comercial. Nessa época, certamente acontece um grande aquecimento nas vendas, onde muitas vezes o foco da celebração se perde em meio ao interesse insensato de obtenção de lucros e de vantagens indevidas. Nem por isso devemos deixar de comemorar essa tão importante data, e nosso dever como cristãos é o de realinhá-la ao seu propósito primordial de anunciar ao mundo que o Salvador veio, veio em carne, andou por onde nós andamos, se vestiu e viveu como um dos nossos, e não maculou-se com a corrupção desse mundo, antes veio servir de modelo de perfeita dignidade perante Deus.

Há uma rica tradição protestante de se oferecer à comunidade nessa época as centenárias peças musicais natalinas, e que a cada ano vêm com novos arranjos musicais, e eventualmente acompanhadas de encenações teatrais e coreográficas retratando os acontecimentos que culminaram no nascimento de Cristo, há mais de dois mil anos atrás. As cantatas de Natal são riquíssimas oportunidades de se enriquecer a comunhão entre os membros da igreja local, pois estão lado a lado às apresentações dos solistas, dos corais, todos os que dedicam os seus dons e talentos especiais, quer sejam na elaboração dos textos, de figurinos, cenários, na iluminação ou na sonoplastia, e é certamente que na união de todos que se viabiliza uma apresentação de musical natalino que se tornará inesquecível a todos. Além disso, trata-se de uma importantíssima ferramenta evangelizadora. Através das cantatas muitas pessoas têm se encontrado com Cristo, aceitando-O como Seu Salvador pessoal, e devotando-lhe completamente a sua vida e a sua existência.

O texto de Isaías 9:6 que citamos no início vem como uma forte inspiração a tudo isso. Afinal de contas, é porque Ele nasceu, é porque Ele veio ao mundo, ainda como um Bebê, humilde, nascido num estábulo, que nós hoje podemos celebrar a vida nova que temos através da fé no Filho de Deus. E não nos importa nenhum pouco que esta data não seja precisamente a data do Seu nascimento, pois é certo que Ele nasceu, em algum dia do ano, e é porque Ele nasceu, cresceu, exerceu Seu ministério, curou enfermos e expulsou demônios, morreu na Cruz e ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus e enviou em seguida o Seu Espírito Santo sobre a Sua igreja, que hoje nós podemos nos alegrar em sermos Cristãos. E é essa alegria que devemos partilhar com as demais pessoas, quer seja através do nosso testemunho, quer seja pela pregação do Evangelho, quer seja pela música ou qualquer outra forma de arte.

Que a lembrança da “Noite Feliz” nos faça meditar sobre o verdadeiro sentido do Natal, que o Natal é o próprio Senhor Jesus Cristo, nascendo Homem! Que o glorioso mistério da Encarnação nos envolva, desperte em nós verdadeira paixão evangelizadora e nos impulsione mais ainda a bradar aos habitantes da Terra:

♪ “Povos, cantai: nasceu Jesus / Saudai o grande Rei! / Sim, todo ser que respirar, / Alegres adorai, alegres adorai / Rendei louvor ao nosso Rei!” ♫

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 19ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Da Importância do Debate Teológico


Quem diz que debater Teologia não é importante, geralmente diz isso porque não consegue enxergar nela nenhuma aplicação prática. Consideram a Teologia algo para saciar a sede de nossa curiosidade intelectual, algo que supostamente 'esfria o fogo' da verdadeira fé e distrai o foco de coisas mais importantes. O que eles esquecem é que, intrinsecamente, o estudo da Teologia cristã existe em função da ética e vida cristãs. Em outras palavras, a Teologia é uma ciência prática e precisa ser entendida dessa forma.

Nessa perspectiva, o debate histórico de calvinistas e arminianos ou a discussão em torno do neopentecostalismo (tomemos os exemplos mais populares) torna-se útil. Veja, leitor, não estou dizendo que esses debates são imprescindíveis à salvação (até porque não somos salvos por ter uma confissão de fé ortodoxa, mas pela graça, mediante a fé) ou que conhecer e se posicionar quanto a isso é essencial à vida cristã. Estou dizendo que esse tipo de debate é útil, por pelo menos duas razões, descritas a seguir.

Em primeiro lugar, esse debate é útil porque, como já foi dito e deverá ser melhor desenvolvido, a teologia é uma ciência prática. E é prática porque - de forma natural - gera em nós um tipo de espiritualidade, que gera um tipo de vivência. A posição calvinista gera um tipo de espiritualidade, que gera um tipo de vivência; da mesma forma que a posição arminiana gera um tipo de espiritualidade, gerando um tipo de vivência. Alguns amigos meus arminianos costumam dizer que "os calvinistas missionários ou evangelistas não parecem levar seu calvinismo tão a sério assim". Afinal de contas, se você entende que os eleitos vão ser irresistivelmente salvos, você pregando ou não; e que os não-eleitos vão ser incondicionalmente condenados, você pregando ou não: qual seria a real importância de você sair de sua zona de conforto, indo até um lugar terrivelmente distante a fim de pregar o Evangelho? Quem percebe isso é o pastor anglicano e teólogo arminiano John Wesley, em seu sermão intitulado "Graça Livre". O alvo de Wesley, nesse sermão, é criticar a teoria calvinista, com base na conclusão lógica de sua prática. 

Outro bom exemplo é o neopentecostalismo. Alguns pastores que seguem essa linha de pensamento creem que um bom cristão deve ser rico e saudável. Se ele não for rico e saudável, ele provavelmente está sob o jugo de um demônio. Ou é falta de fé em Deus. Que tipo de vida e ética cristã esse tipo de 'teo'logia vai gerar? Possivelmente uma missão comprometida com as coisas desse mundo, e não com as coisas eternas. Não é minha pretensão emitir juízo de valor sobre o calvinismo ou sobre o neopentecostalismo. Só fiz isso a fim de comprovar a minha tese de que um posicionamento doutrinário deve possuir uma conclusão prática, a fim de poder ser bem debatida e provocar a edificação mútua dos irmãos. Essa é uma das razões pelas quais o debate teológico é importante: porque, debatendo a teoria, poderemos aprimorar as nossas relações práticas com Deus e, claro, com o nosso próximo.

A segunda razão pela qual vemos que o debate teológico é importante é que Ele nos aproxima da revelação de Deus, a partir da pessoa de Jesus Cristo e das Sagradas Escrituras. Eu não ligava tanto para a leitura da Bíblia, até que descobri que havia gente usando a Bíblia como instrumento para enganar pessoas e levá-las a darem dinheiro para as suas igrejas. Ora, isso é diabólico e terrivelmente antibíblico. A partir daí, pela graça de Deus, formou-se em mim uma imensa sede em estudar o que a Bíblia diz sobre essas questões. Em minha humilde e ignorante opinião, insisto em dizer que essas bobajadas neopentecostais, como teologia da prosperidade, judaização do culto, confissão positiva etc., são as principais causas que tem levado os jovens de hoje aos Seminários e Faculdades de Teologia. E glória a Deus por isso. 

Como a Escritura nos diz: "...e até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós" (1 Coríntios 11:19). E mesmo com todos os pilantras e mercadores da fé proclamando um falso evangelho, a ordem é clara: 
"Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus." (2 Timóteo 3:14-15)
Com isso, concluo que o debate teológico é útil para a nossa edificação (apesar de não ser imprescindível à salvação ou essencial à prática cristã), porque, conforme vimos, a teologia deve ser encarada como uma ciência prática, aprimorando a nossa espiritualidade e vivência com Deus e o com o nosso próximo; bem como nos aproximando das verdades reveladas por Deus para nós, em sua Palavra e em Cristo Jesus, nosso Senhor, Redentor e Mestre.

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¹ Lucas Martins, por Lucas Martins: "Cristão batista, nordestino, escritor e leve ameaça aos mercantes da fé. Porque o que não tem preço não pode ser vendido." Publicou este texto em seu perfil social no Facebook. Publicado com a autorização do autor.